A retirada de próteses mamárias nunca foi tão procurada. Segundo a pesquisa global da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), foram realizados 335.939 explantes no mundo em 2023, um crescimento de 46,3% em relação a 2019. Só no Brasil, foram 41.314 cirurgias de retirada de implantes no mesmo ano.
Com esse aumento, um termo passou a dominar as pesquisas na internet: explante em bloco. Muitas pacientes chegam ao consultório convictas de que essa é a única forma “correta” de retirar o silicone. Mas o que a ciência realmente diz sobre isso?
Primeiro, o que é a cápsula?
Ao redor de todo implante, o organismo forma uma camada de tecido fibroso chamada cápsula. É uma reação natural de defesa a qualquer corpo estranho e, na maioria das mulheres, ela permanece fina e sem causar problemas.
Em alguns casos, porém, a cápsula pode engrossar, endurecer e calcificar, quadro conhecido como contratura capsular. A forma de lidar com ela durante o explante é uma das decisões mais importantes do planejamento cirúrgico.
O que é o explante em bloco?
No uso popular, explante em bloco é a cirurgia em que a prótese e a cápsula são retiradas juntas, em uma única peça, sem que a cápsula seja aberta. Na prática, o implante sai “embalado” dentro do tecido que o envolvia.
Tecnicamente, a literatura médica faz uma distinção importante. Um consenso publicado pela The Aesthetic Society define quatro tipos de capsulectomia:
Capsulectomia total intacta: toda a cápsula é retirada em peça única, junto com o implante. É o que a maioria das pacientes chama de “em bloco”
Capsulectomia total: toda a cápsula é retirada, mas não necessariamente em uma peça só
Capsulectomia parcial: parte da cápsula é deixada no local
Capsulectomia em bloco (no sentido oncológico): retirada da cápsula com uma margem de tecido saudável ao redor, indicada para tratar câncer associado ao implante
Entender essa diferença ajuda a ter uma conversa mais clara com o seu médico sobre o que será feito.
Quando a retirada completa da cápsula é indicada?
A indicação absoluta para a técnica em bloco, com margem, é o linfoma anaplásico de grandes células associado ao implante mamário (BIA-ALCL). Trata-se de um tipo raro de linfoma que se desenvolve na cápsula, e não no tecido da mama.
Até junho de 2024, a FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, havia registrado 1.380 casos e 64 mortes em todo o mundo. Segundo a Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos (ASPS), o risco varia de 1 em 2.207 a 1 em 86.000 pacientes, dependendo do tipo de prótese, e está associado principalmente a implantes texturizados. O tempo médio entre a colocação e o diagnóstico é de cerca de 10 anos.
A capsulectomia total, intacta ou não, também costuma ser considerada em situações como:
Ruptura do implante, para remover o gel extravasado junto com a cápsula
Contratura capsular avançada, com cápsula espessa ou calcificada
Cápsula com aspecto suspeito em exames de imagem
Desejo da paciente, após entender riscos e benefícios
Retirar a cápsula inteira melhora mais os sintomas?
Essa é a dúvida mais comum entre mulheres que relacionam sintomas como cansaço, dores articulares e “névoa mental” ao silicone, quadro muitas vezes chamado de doença do implante mamário ou Síndrome ASIA.
O maior estudo prospectivo sobre o tema, financiado pela fundação de pesquisa da The Aesthetic Society (ASERF) e publicado no Aesthetic Surgery Journal, acompanhou 150 pacientes divididas em grupos. Os resultados mostraram que:
88% das pacientes que relacionavam sintomas ao implante tiveram melhora ao menos parcial após 1 ano da retirada
A melhora foi semelhante independentemente do tipo de capsulectomia: total intacta, total ou parcial
No Brasil, um estudo multicêntrico publicado na Revista Brasileira de Cirurgia Plástica avaliou 156 pacientes e encontrou melhora dos sintomas em 66,1% delas após o explante.
Ou seja, a retirada do implante parece ser o fator mais relevante para a melhora relatada. A técnica de retirada da cápsula deve ser escolhida pelos achados clínicos, e não por promessas de resultado.
Existe risco em retirar a cápsula inteira?
Sim, e ele precisa ser considerado. Uma análise de 3.048 pacientes submetidas à capsulectomia mostrou taxa de complicações maiores de 2,8%, contra 1,9% em retiradas ou trocas sem capsulectomia. O hematoma foi a complicação mais frequente (1,6% contra 0,9%).
Isso acontece porque, em alguns casos, a cápsula é muito fina ou está aderida às costelas e ao músculo, principalmente em próteses posicionadas atrás do músculo. Forçar a retirada intacta nessas situações pode aumentar o risco de sangramento e de lesões na parede torácica.
Como é a cirurgia e a recuperação?
Como a peça sai inteira, a incisão costuma ser maior e, na maioria dos casos, é feita no sulco mamário, a dobra abaixo da mama. A cirurgia é realizada sob anestesia geral e pode utilizar dreno por alguns dias.
A cápsula retirada pode ser enviada para análise anatomopatológica, o que ajuda a descartar alterações e documentar o caso. A maior parte das pacientes retoma atividades leves em poucos dias, com liberação gradual para esforços e exercícios.
Decisão técnica, não tendência
O melhor explante não é o que segue a moda das redes sociais, e sim o que respeita a anatomia, o histórico e os objetivos de cada paciente. Uma avaliação com mastologista, com exame físico e exames de imagem, define a técnica, a via de acesso e a necessidade de associar outros procedimentos, como a mastopexia.
Se você está pensando em retirar suas próteses, agende uma avaliação. Um plano individualizado é o primeiro passo para uma decisão segura e bem informada.
Referências
1. ISAPS. International Survey on Aesthetic/Cosmetic Procedures performed in 2023.
2. The Aesthetic Society. Consensus statement: breast implant capsulectomy definitions.
3. FDA. Medical Device Reports of Breast Implant-Associated Anaplastic Large Cell Lymphoma (dados até 30/06/2024).
4. ASPS. BIA-ALCL: Summary and Quick Facts.
5. Glicksman C, et al. Impact of Capsulectomy Type on Post-Explantation Systemic Symptom Improvement. Aesthetic Surgery Journal, 2022.
6. Glicksman C, et al. Longevity of Post-Explantation Systemic Symptom Improvement (Part 4). Aesthetic Surgery Journal, 2023.
7. Valente DS, et al. Explante de silicone mamário: um estudo longitudinal multicêntrico. Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, 2022.
8. Afshari A, et al. Incidence and Preoperative Risk Factors for Major Complications After Capsulectomy: Analysis of 3048 Patients. Aesthetic Surgery Journal, 2022.




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